Exposição

«Descobrir Marraquexe foi um grande choque. Esta cidade abriu-me os olhos para a cor.» disse Yves Saint Laurent após a sua primeira viagem à lendária cidade marroquina em 1966. O seu companheiro, Pierre Bergé, diria mais tarde: «Quando visitámos Marraquexe pela primeira vez, mal podíamos imaginar que se tornaria para nós uma segunda casa.»
LOVE é a exposição que traz até ao Palácio dos Duques de Cadaval o infinito amor de Yves Saint Laurent pela cidade de Marraquexe. Os laços entre o designer de moda francês e Marrocos ressoam em infinitas possibilidades e levam a novas abordagens estéticas e conexões criativas. Estes momentos apresentam-se em LOVE num alinhamento de três capítulos distintos e narrados de forma única.

O primeiro capítulo evidencia como Marrocos foi, de forma inequívoca, a musa do criador francês. Stephan Janson, curador, torna a Igreja de São João Evangelista o palco de uma mostra de catorze coordenados provenientes de um empréstimo excecional da Fondation Pierré Bergé – Yves Saint Laurent, em Paris, e de colecionadores privados. Catorze conjuntos cuidadosamente selecionados revelam as nuances do imaginário criativo de Yves Saint Laurent.

O segundo capítulo tem a curadoria de Mouna Mekouar e está patente no coração do Palácio dos Duques de Cadaval, transportando os visitantes numa viagem à descoberta da cena artística contemporânea de Marrocos e das influências partilhadas pelos artistas e Yves Saint Laurent. A visão criativa do estilista – sobretudo o seu uso ousado da cor e do espaço – está presente nos trabalhos de doze artistas marroquinos, oriundos de diferentes gerações e disciplinas. O ponto de partida para a exposição são os famosos cartões de felicitações anuais do Yves Saint Laurent, em forma de cartaz, criados ao longo de um período de 27 anos e que, invariável e proeminentemente, ostentavam a palavra LOVE.

A grande exposição completa-se com o terceiro capítulo e representa uma homenagem a Pierre Bergé, que incentivou e apoiou o artista e estilista Noureddine Amir ao apresentar o seu trabalho na Fondation Pierre Bergé – Yves Saint Laurent em Paris, em 2014, e no Musée Yves Saint Laurent Marrakech, em 2018. Noureddine Amir foi o primeiro criador marroquino a apresentar uma coleção de alta costura em Paris a convite da Fédération de la Haute Couture, em julho de 2018. Com curadoria de Alexandra de Cadaval, este capítulo da exposição mostra os vestidos escultóricos de Noureddine Amir, cuja obra desfaz a fronteira entre moda, arte e arquitetura.

Visitar o Palácio dos Duques de Cadaval, em Évora, é sentir de perto aquela que é também a história de Portugal. O edificado, que acolhe a exposição LOVE, é o berço e propriedade da família dos Duques de Cadaval, desde a sua fundação, no século XIV, até aos dias de hoje, tendo nascido sobre as ruínas de um castelo mouro e sabido prolongar- -se no tempo em toda a sua essência através de cuidados programas de intervenção.

Artistas

AMINA
AGUEZNAY

Para criar esta série de obras para Évora, Amina Agueznay foi a Tissekmoudine, a sudeste de Agadir, na região do Sous marroquino. Obteve aí matérias-primas locais que evocam o seu ambiente natural, bem como o património arquitetónico da aldeia fortificada (ksar). À semelhança da sua amiga, a arquiteta Salima Naji, que utiliza adobe e pedra local na sua ecorrestauração destes ksars, Agueznay escolheu lã natural não tingida e casca de tamareira para tecer os seus portais, criando uma ponte entre o artesanato e a arquitetura.

Conhecida localmente como talefdamt, a casca de tamareira é tradicionalmente empregue num certo tipo de cestos, como, por exemplo, os utilizados na alimentação de animais ou arial. Neste caso, Agueznay encorajou as tecedeiras locais a usar a casca de tamareira como se de lã se tratasse, demolhando-a e cardando-a de modo a que pudesse ser interpretada — através de técnicas de tecelagem plana e atada – num tear vertical. Esta metodologia reflete a interação entre o ksar e o oásis, da inspiração até à matéria prima e à produção.

As obras resultantes transbordam cor, a cor daquele lugar. Uma cor natural! Ganham vida noutra interação assente em estímulos sensoriais. A textura escovada da talefamt contrasta de forma notória com a familiar suavidade da lã. Sim, é possível tocá-la. E vê-la, e cheirá-la. O tamareiral persiste no cheiro orgânico da casca e da lã não tratada. Esta resposta sinestésica evoca as cores do oásis e as paredes do ksar, o calor do sol e até o azul do céu. Ao longo da sua carreira, Yves Saint Laurent mostrou-se fascinado e profundamente inspirado pelas cores naturais destas paisagens marroquinas, que revisitou em muitas das suas peças de vestuário e nos cartazes LOVE.

Kristie Jones
MALIKA
AGUEZNAY

Serígrafa e pintora, o percurso de Malika Agueznay como artista está intimamente ligado ao nascimento e desenvolvimento da arte contemporânea marroquina. Em meados da década de 60, inscreveu-se como estudante na L’École des Beaux Arts, onde ganhou notoriedade e foi apoiada pelos seus professores, alguns dos quais figuras de destaque no movimento da Escola de Casablanca. Estava lançada a sua carreira como a primeira artista contemporânea feminina de Marrocos. Os primeiros anos da Escola de Casablanca foram difíceis: a sua inovadora produção foi alvo de muitas críticas em Marrocos. Com o forte apoio dos seus colegas artistas e do seu marido, Agueznay aperfeiçoou, ao longo dos anos, um estilo único que se distingue pelas intrincadas formas orgânicas entrelaçadas e sobrepostas, às quais ela chama «algas». Com essas formas, elabora composições perfeitamente equilibradas, sejam elas puramente abstratas ou contendo elementos pictóricos. As suas serigrafias e pinturas, que tanto refletem cores vibrantes como suaves, contêm formas que interagem para criar deslumbrantes quadros imbuídos de movimento pulsátil. Ao usar a silhueta da alga como signo, a artista oferece-nos múltiplas variações que evocam as graciosas curvas do corpo feminino, o movimento tentacular das bactérias observadas ao microscópio e até o sol. As cores quentes e arrojadas evidenciadas na sua obra acentuam as formas.

O motivo das algas fez igualmente parte do vocabulário de Yves Saint Laurent, inspirado por Matisse, que utilizou juntamente com outros padrões para criar desenhos e peças de vestuário deslumbrantes, imbuídos de um movimento vibrante e giratório, ao passo que o motivo do sol, frequentemente visto nos cartazes LOVE concebidos por Yves Saint Laurent, constitui um tributo ao fascínio do estilista pela luz de Marraquexe.

Mouna Mekouar
NOUREDDINE
AMIR

Integrando-se harmoniosamente neste evento cultural, o estilista marroquino Noureddine Amir é tanto designer de moda como artista, tirando partido do artesanato e dos materiais da sua terra natal para produzir obras de arte, peças escultóricas que pertencem tanto à passarela como a um museu de arte.

Noureddine Amir foi o primeiro criador marroquino a apresentar uma coleção de alta costura em Paris, a convite da Fédération de la Haute Couture. Muito admirado e incentivado por Pierre Bergé, que viu o seu trabalho como o memorável ponto de encontro entre os mundos da moda e da arte e organizou exposições com as suas criações em Paris e Marraquexe, Noureddine Amir é único na forma como domina e transforma materiais para responder às suas próprias e complexas exigências arquitetónicas, revisitando e reimaginando elementos naturais e primordiais como a juta, a ráfia, a lã e o algodão.

O resultado, parte do qual temos o prazer de apresentar aqui, orgulha-se da sua herança, evidenciando a paixão do artista pelo jogo entre texturas e estruturas, em peças instintivas que fazem tanto referência a África como ao desejo do costureiro de produzir forma e elegância

Alexandra de Cadaval
NASSIM
AZARZAR

Nassim Azarzar é um artista visual e designer gráfico cuja obra se centra em padrões naturais, práticas tradicionais e contemporâneas de serigrafia e na estética da cultura popular. A sua inspiração provém de uma estética contemporânea que emergiu, pintada à mão, nas fachadas das montras e no design que dá forma à imagem quotidiana do Marrocos de hoje.

Interessa-se pela iconografia visual que rodeia o mundo dos camiões. Ao viajar entre Tânger e Rabat – onde colaborou com Hicham Bouzid e Amina Mourid para criar a plataforma Think Tanger – ficou maravilhado com a ornamentação gráfica e colorida dos camiões com que se cruzava. Começou então a observar os autocolantes nos seus para-brisas, as suas espalhafatosas estruturas luminosas e as tipografias que adornavam os enormes veículos, bem como os desenhos presentes nos seus para-lamas. O resultado era um efeito impressionante que ele procurou reproduzir nas suas pinturas de cores vivas. «Este projeto motiva-me na minha obra; inspira-se muito nestes grafismos coloridos», explicou. Tal como os artistas da Escola de Casablanca que o precederam – nomeadamente Mohamed Melehi e Mohammed Chebaa, que procuraram forjar uma linguagem moderna explorando a tradição vernácula – Nassim Azarzar procura forjar pontes entre as artes plásticas e a criatividade popular e urbana. Com estas pinturas, pretende criar o que pode ser interpretado como «uma abstracta e colorida viagem por Marrocos».

Muitos pontos de referência que ecoam a visão criativa de Yves Saint Laurent – particularmente o seu ousado uso da cor e do espaço – podem ser encontrados na obra de Nassim Azarzar.

Mouna Mekouar
MERIEM
BENNANI

Guided Tour of a Spill (Visita Guiada a um Derrame, em português) nasceu de uma profunda análise sobre os conteúdos audiovisuais de canais online marroquinos e médio-orientais a que Bennani assistiu, os quais posteriormente misturou com imagens da Getty e dos seus próprios arquivos para criar algo que pode ser descrito, segundo a nota de imprensa do programa, como uma «sopa de YouTube». «Eu queria que Guided Tour of a Spill fosse sobre um novo espaço — e pensei: “E se o espaço documentado fosse o espaço digital?” Estava interessada no mecanismo da ficção científica como metodologia alternativa para a produção documental. A ilha do CAPS permite-me fazer uma espécie de documentário sobre Marrocos, ao mesmo tempo que exploro o país de forma mais especulativa. Esse espaço raramente é dado a uma história que não esteja no centro das atenções.» Esta obra faz parte do seu projeto alargado, Life on the CAPS, que se centra numa ilha fictícia situada no meio do Oceano Atlântico, que se torna um lugar de cultura e resistência diaspóricas.

Guided Tour of a Spill é a mais recente etapa de uma trilogia de imagens em movimento na qual ela imagina um futurista campo de detenção para teletransportadores gerido pelos americanos e onde vive o «Croco», um réptil animado que serve ao mesmo tempo como ídolo e mascote para os habitantes do CAPS. A obra de Bennani, repleta de humor absurdista, destila uma mescla de conteúdos digitais e cores vivas e torna-se uma incisiva crítica ao pós-colonialismo, à tecnologia, à economia e ao poder.

Bennani explicou: «O que eu tinha em mente era o filme Fantasia, da Disney. O filme era claramente uma demonstração de técnicas de animação inovadoras, aliadas a algumas das mais conhecidas músicas clássicas europeias. Vê-se e percebe-se que a música é hegemónica, mas o filme em si é também muito mágico.» O processo de remixagem do trabalho com diferentes camadas de significados e referências – todas elas remetendo indiretamente o seu amor por Marrocos – adapta-se bem a Bennani e traz-nos à memória o método criativo de Yves Saint Laurent.

Mouna Mekouar
YTO
BARRADA

Yto Barrada é já conhecida pela sua investigação multidisciplinar de fenómenos culturais e narrativas históricas. Imbricadas na performatividade das práticas arquivísticas e intervenções públicas, as instalações de Barrada reinterpretam relações sociais, denunciam histórias subalternas e revelam a prevalência da ficção nas narrativas institucionalizadas.

Palmeira Verde e Palmeira Azul são duas grandes esculturas metálicas pintadas em forma de palmeira, iluminadas com lâmpadas coloridas. As obras apresentam-se em condições menos que perfeitas, com arranhões na tinta e casquilhos sem lâmpadas, o que lhes confere a aparência de objetos antigos ou negligenciados; no entanto, foram concebidas propositadamente pela artista para terem esse aspeto.

As cores das palmeiras correspondem às cores dos táxis em algumas cidades marroquinas, nomeadamente em Casablanca. Com estas sinaléticas em forma de palmeira, Barrada explora as suas inquietações com o desenvolvimento urbano de Marrocos, bem como com o uso da cor nas cidades. A palmeira tornou-se uma imagem importante na obra recente da artista e um icónico símbolo local.

Encontramos estas cores vibrantes das cidades marroquinas, com toda a sua sinalética urbana e caos, em muitos dos cartazes LOVE criados por Yves Saint Laurent.

Mouna Mekouar
HICHAM
BERRADA

Profundamente influenciada pela sua formação como artista e cientista, a obra de Hicham Berrada combina intuição e conhecimento, ciência e poesia. Nela, Berrada explora protocolos científicos que reproduzem fielmente vários processos naturais e/ou condições atmosféricas. Um autêntico teatro operatório, Présage é o resultado de uma encenação na qual o artista combina produtos químicos num gobelé. Estas manipulações produzem uma paisagem quimérica em constante metamorfose. A série performativa Présage revela paisagens que emergem no interior de um recipiente. Ao adicionar gradualmente diferentes elementos – incluindo ferro, cobre e estanho – a compostos acídicos ou alcalinos, produz-se um espetáculo de formas desconhecidas. Estas transformações materiais, filmadas e projetadas em simultâneo num ecrã, mergulham o público num mundo de cores e formas fascinantes. Berrada evita assim qualquer tipo de trabalho de pós-produção nos seus vídeos, que para ele representam tanto documentação como obras de arte autónomas.

O artista entende estas paisagens efémeras como verdadeiras criações pictóricas: «Tento controlar os fenómenos que utilizo da mesma forma que um pintor controla os seus pigmentos e pincéis. Os meus pigmentos e pincéis são o calor, o frio, o magnetismo e a luz.» Estas cores, formas e metamorfoses criadas por Berrada teriam fascinado Yves Saint Laurent, que se mostrava sempre atento à relação entre cores, tecidos e movimento.

Mouna Mekouar
M’BAREK
BOUHCHICHI

Licenciado em artes visuais pelo Centre Pédagogique Régional de Rabat, M’barek Bouhchichi é professor de artes desde meados da década de 1990, primeiro em Tiznit e mais recentemente em Tahannaout.

A sua obra, figurativa e abstrata, abrange escultura em terracota e pintura e retira inspiração de uma multiplicidade de fontes, incluindo narrativas berberes, pintura paisagística, história antiga, mitologia do sul de Marrocos e poesia sufi. Nunca longe da terra e do solo, as suas obras emergem como narrativas inacabadas do sul de Marrocos. Ao mesmo tempo atemporais e específicas, ocupam um espaço entre o contemporâneo, arcaico e mitológico, construindo um mundo nascido da história e da memória e jogando com os conceitos de replicação e repetição.

A obra de Bouhchichi debruça-se sobre os conhecimentos e práticas dos artesãos. Frequentemente produzida em colaboração com grupos e associações de artesãos – oleiros, ferreiros, ourives, etc. –evidencia as competências específicas dos artesãos ao mesmo tempo que reavalia o seu estatuto. Traz ainda uma nova perspetiva quanto às atividades e padrões tradicionalmente associados aos artesãos e artesãs do sul de Marrocos. A obra de Bouhchichi demonstra a sua fé no material – seja ele terra, madeira ou metal – e a sua convicção de que o material, pela sua qualidade de presença e mutabilidade de forma, bem como pelas suas cores naturais, encerra em si um importante potencial. A sua preocupação com as cores naturais é patente em cada uma das suas obras. São frequentemente pintadas com hena ou vidradas com tons terrosos. Este interesse pelo artesanato e apreço pelas variações subtis dentro da repetição destas cores de terra era também partilhados por Yves Saint Laurent.

Mouna Mekouar
SOUFIANE
IDRISSI

Soufiane Idrissi começou a sua vida profissional na área das artes gráficas e ciências informáticas. Em 2007, juntamente com Mohammed Chrouro, fundou o Radar Collective, uma plataforma que transforma imagens da internet em obras de arte.

Em busca de um novo tipo de pintura para a era digital e questionando os desafios suscitados pela utilização destes novos meios na criação artística, Idrissi trabalhou durante dois anos com engenheiros informáticos para conceber um algoritmo em que cada cor e cada forma é transcrita numa linha de programação. Desta forma, uma cor amarela ou verde é encapsulada num programa online e associada a outra linha de código que define a sua forma.

No ponto de encontro entre o virtual e o real, este arranjo abstrato de formas e cores, criado por uma inteligência artificial, é então transposto para a tela. Após inúmeras experiências com diferentes suportes e materiais, incluindo pastel, óleo, acrílico sobre papel e óleo sobre madeira, Idrissi optou por dar forma à sua obra utilizando tinta celulósica sobre painéis de platex, resultantes da mistura de fibras e resina sintética, como é o caso das obras aqui expostas.

Idrissi criou pinturas abstratas que envolvem arranjos geométricos de cores, integrando no seu trabalho uma dimensão tornada possível com a utilização de novas ferramentas de inteligência artificial. Ao jogar com a relação entre belas artes e tecnologia, Idrissi constrói uma ponte entre os mestres que admira, nomeadamente os pintores da Escola de Casablanca, e uma nova via para a pintura contemporânea. Apesar das enormes diferenças entre a alta costura e a pintura, Yves Saint Laurent e Soufiane Idrissi partilham uma relação com a cor que é ao mesmo tempo simples e profundamente sensorial.

Mouna Mekouar
MOHAMMED
MELEHI

Mohamed Melehi nasceu na cidade portuária de Arzila, Marrocos, em 1936. Aos 19 anos, frustrado com os limites da expressão artística tradicional em Marrocos, mudou-se para Espanha em busca de novas ideias e inspiração. Seguiu depois para Roma, onde conheceu Lucio Fontana e Alberto Burri, tornando-se um membro ativo da vibrante cena cultural da cidade. Quando chegou a Nova Iorque, o panorama artístico local estava já no seu auge. Conheceu Frank Stella, que o apresentou ao movimento artístico e ao seu estilo abstrato e geométrico. Conheceu também muitos outros artistas na Leo Castelli Gallery, incluindo Jasper Johns e Robert Rauschenberg, cujo uso da cor tinha transformado o seu trabalho anterior, bastante mais austero. As suas obras relembraram a Melehi a estética subjacente à arte e arquitetura tradicionais islâmicas, visível em cada canto de Marrocos. «A arte marroquina sempre foi hard-edge», disse Melehi ao The Guardian, em 2019.

As conexões que Melehi estabeleceu entre o seu país e a pintura abstrata levaram o pintor a regressar a Marrocos. Ali permaneceu para o resto da sua vida, tendo-se tornado um participante ativo na importante mudança que ocorreu no panorama artístico marroquino. A obra de Melehi desempenhou um papel vital na emergência de uma nova estética marroquina. Passou a incorporar na sua obra materiais que evocavam a identidade local, utilizando os mesmos materiais baratos a que um artesão marroquino teria acesso, e adotou a tinta de verniz, habitualmente usada em automóveis, para evidenciar uma ligação com a classe trabalhadora. A sua importância está a ser gradualmente reconhecida – Tate Modern, Centre Pompidou e MoMA contam com obras suas nas coleções permanentes –, um legado digno de um artista que ousou trilhar o seu próprio caminho e que levou as cores vivas e brilhantes onde a toda a parte.

Yves Saint Laurent e Mohammed Melehi eram da mesma geração, mas nunca tiveram a oportunidade de se conhecer. No entanto, partilhavam o mesmo enorme interesse pelas formas vernáculas e tradicionais de Marrocos. Os cartazes LOVE criados pelo estilista são testemunho dessa paixão mútua.

Mouna Mekouar
SARA
OUHADDOU

Nascida no seio de uma família tradicional marroquina, Sara Ouhaddou criou toda uma obra alimentada pela experiência de crescer entre culturas. Iniciou a sua carreira como designer antes de enveredar por uma abordagem mais artística e social. O seu trabalho aborda especificamente os diversos desafios enfrentados pela comunidade de artesãos em Marrocos, ao mesmo tempo que questiona a disponibilidade da arte e do artesanato como instrumentos para o desenvolvimento económico, social e cultural no mundo árabe. Por outro lado, a sua característica conjugação de formas de arte tradicionais marroquinas e práticas artísticas contemporâneas reformula realidades culturais esquecidas.

A sua obra aqui apresentada tornou-se possível graças à colaboração com vidreiros que mantêm viva uma forma de arte árabe-muçulmana de raro virtuosismo ameaçada de extinção. «Pude traçar a rota deste saber e desvendar as origens do vidro iraquiano, que é parte integrante da arquitetura das medinas de Marrocos.» Geralmente vermelho, verde ou azul, o vidro iraquiano é reconhecível pela sua rudeza e pela própria aparência. Frequentemente substituído, hoje em dia, por vidro mourisco ou vidro pálido e polido recuperado, o vidro iraquiano é testemunha de um passado sumptuoso que fascina Ouhaddou. Esta obra combina a manipulação do vidro e a experimentação com um alfabeto pessoal influenciado pela arte berbere, cuja abstração geométrica inspirou a artista. Fazendo uso de uma panóplia de motivos e cores, conta a história e a evolução do vitral nas casas marroquinas — um fascínio partilhado por Yves Saint Laurent, que se inspirou muito nas artes decorativas marroquinas, nomeadamente no vitral.

Mouna Mekouar
YOUNES
RAHMOUN

As obras criadas por Younès Rahmoun retiram o seu significado de uma visão do mundo assente na filosofia sufista. A sua abordagem, que procura conciliar práticas artísticas e espirituais, é uma variação do conceito de harmonia, o princípio de coesão entre os seres e o seu ambiente. Marcado pela fé e tendo-se voltado para a meditação, o artista não procura representar a harmonia, mas antes sugerir a sua presença e evocar o seu espírito. Procura dar forma ao que não tem forma, materializar o imaterial e revelar o lado invisível das coisas. «Tal como a fé, a alma, o espírito e o despertar, procuro dar forma ao invisível e impalpável», explica. Para o fazer, tenta transcender a matéria e incutir vida e leveza a cada objeto. Tudo desempenha um papel: luz e cores, símbolos e números, orientação e sentido das formas no espaço. Com manchas de luz e cor, Manzil-Tayf sugere pequenas casas, formas temporárias de habitat e construções imaginárias. Fazendo eco da expressão do artista, evoca também, metaforicamente, «o corpo habitado pela luz». Manzil-Tayf sugere, assim, a capacidade presente em cada um de nós para brilhar – através da dualidade do movimento interno e externo – com um espetro infinito de luz e cor. Através desta repetição de forma e cor, estas casas representam também unidade na diversidade.

Muito embora Yves Saint Laurent não tivesse uma propensão para a espiritualidade, obras de arte inspiradas no sufismo, tais como as contidas nas artes decorativas marroquinas, serviam de alimento à sua alma. «A ousadia do meu trabalho a partir de então, devo-a a este país, às suas pujantes harmonias, às suas arrojadas combinações, ao fervor da sua criatividade. Esta cultura tornou-se minha, mas não me limitei a absorvê-la; peguei nela, transformei-a, adaptei-a.» – Yves Saint Laurent.

Mouna Mekouar
ABBÈS
SALADI

Em 1977, Abbès Saladi interrompeu os seus estudos de filosofia em Rabat, por razões de saúde, e regressou à sua cidade natal, onde começou a pintar e vender as suas obras em Jemaa el-Fnaa, a praça central de Marraquexe que tanto encantou Yves Saint Laurent. Nas suas obras, Saladi retratava sobretudo cenas do seu país natal, recorrendo, ao mesmo tempo, a padrões do imaginário árabe. As pinturas estilizadas do artista eram figurativas e surrealistas: retratava corpos híbridos, pessoas distorcidas e personagens irreais, combinando plantas, animais e seres humanos para criar um mundo desconhecido.

As suas cores eram luminosas mas subtis e as suas pinceladas transparentes. O seu traço era extremamente preciso. Para Saladi, o ato de criação continha em si um processo terapêutico: era uma forma do seu mundo interior emergir. Através da arte, libertava-se dos tabus e da dor.

É extraordinário que a sua obra tenha incluído uma representação do Jardin Majorelle. A pintura data de 1985, altura em que o Jardin Majorelle era já propriedade de Yves Saint Laurent e Pierre Bergé. «Durante muitos anos, o Jardin Majorelle foi para mim uma fonte inesgotável de inspiração, e muitas vezes sonhei com as suas cores singulares», disse Yves Saint Laurent.

Nos desenhos de Saladi, as tonalidades e a fachada azul, do que é agora o Musée Pierre Bergé des Arts Berbères, são surpreendentes e vibrantes. A estilização característica de Saladi é reconhecível na forma como ele transfigura o padrão do chão do jardim e dissimula corpos híbridos entre a vegetação.

Mouna Mekouar

Concertos

‘Procurai o reino do amor, pois esse reino libertar-vos-á do anjo da morte.‘
– Rumi (poeta místico persa), Odes Místicas
Este programa inédito irá apresentar um Marrocos rico em cores - desta vez, musicais - numa autêntica exaltação e celebração do património marroquino.
Um património que tem sido capaz de preservar uma diversidade cultural excecional, percebendo a importância da sua posição na confluência das civilizações africana, berbere, judaica e árabe. A riqueza da cultura marroquina sempre foi querida do público português. O Palácio dos Duques de Cadaval tem vindo desde há muito a mostrar variados aspetos da cultura marroquina — e diz-se até que o fado, inspirado nas cantigas do mar, esconde em si uma influência árabe.
Amai, em todo o seu esplendor poético, do profano ao sagrado, da efervescência do corpo e dos ritmos à paixão mística.
– Alain Web
Sábado
24 SET
21H
Palácio Cadaval
Música andaluza de Fez
em parceria com o Festival das Músicas Sagradas do Mundo de Fez
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MOHAMMED OTMANI
e orquestra

O nuba começa geralmente com um prelúdio instrumental não-rítmico próprio, chamado touchya. É uma série de movimentos que resume os temas essenciais do modo e traz o ouvinte para o universo particular do tab’a (modo, temperamento, disposição). Cada movimento do nuba forma uma unidade, começando com um bughya (prelúdio instrumental não medido) e, por vezes, com um poema cantado (baytayn ou inshad). Durante o baytayn ou inshad, o cantor solista é apoiado discretamente e sem ritmo por um ou mais instrumentos: trata-se de uma oportunidade para o cantor impressionar o público com as suas capacidades vocais e musicalidade. Os instrumentos de percussão entram então em ação e a série de canções (san’at) começa, de forma estritamente rítmica e executada sem interrupção até ao final do ciclo.

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Sanaa
Marahati

A arte do malhun e da música andaluza.

Nascida em Sefrou, Sanaa Marahati é uma das poucas jovens cantoras a interpretar tradição do malhun e da música andaluza com grande requinte, revivendo as canções dos artesãos de Fez.

Segundo Ibn Khaldoun, o malhun teve origem no Califado Almóada, inspirado pela poesia zajal em árabe dialetal, declamada por meddah.

O malhun foi o artefacto artístico e cultural mais importante da civilização marroquina. Os seus poemas, que refletem todo o espetro da imaginação humana com o esplendor das suas imagens e palavras, continuam, até hoje, a lembrar-nos do papel fundamental da poesia na sociedade tradicional.

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SÁBADO
4 JUN
22h
TEMPLO ROMANO
Palavras de amor e êxtase, sagrado e profano
A arte andaluza encontra o fado
O Sama de Tânger, conduzido por Saïd Belcadi
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Saïd
BELCADI

Saïd Belcadi é um cantor e músico clássico marroquino. Já tocou com Mohammed El-Arabi Serghini, com Eduardo Paniagua e com Omar Metioui, como cantor e tocador de oud. É solista de destaque em festivais de música clássica marroquina.

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Zainab
Afailal

Zainab Afailal já participou em diversos filmes e documentários sobre a música andaluza. O seu amor e paixão pela música andaluza levaram-na a envolver-se na organização de inúmeros workshops técnicos. É também presença regular nos festivais de música andaluza, incluindo o Festival de Músicas Sacras do Mundo de Fez; o Festival da Andaluzia Atlântica em Essaouira; o Andalousiyat; e o Festival de Malouf na Argélia.

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Ana
Pinhal

A música e a arte tornaram-se parte da sua vida de Ana Pinhal desde tenra idade. Em 2002, licenciou-se em design gráfico, embora já trabalhasse como cantora profissional — primeiro como cantora de bossa nova e mais tarde como vocal de apoio da banda portuense BoiteZuleika. Estudou música e teve aulas de canto com Ana Celeste Ferreira. Entre 2007 e 2010, estudou cante flamenco na Fundación Cristina Heeren, em Sevilha. Em 2008, juntamente com Francisco Almeida (guitarra flamenca), lançou o Fado Violado, um projeto que combina fado e flamenco. O seu primeiro álbum, «Jangada de Pedra», foi editado em 2015. Para além do projeto Fado Violado, Ana Pinhal é fadista residente na Taberna Real Fado, no Porto, e membro do Fado no Porto, em residência nas caves de vinho do porto da Calém, em Vila Nova de Gaia. A Ana já atuou ao vivo em Portugal, Espanha, França, Países Baixos, Roménia, Bulgária, Hungria e Índia.

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DOMINGO
5 JUN
12h
Mosteiro da Cartuxa
Canto Sufi
Walid Ben Selim
(espaço limitado; pre-inscrições por email necessárias)
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Walid
Ben Selim

Walid Ben Selim é um poeta do impossível e do invisível. Nascido em Casablanca, e depois de se ter envolvido nas convulsões poéticas do rap e do metal oriental, tornou-se no arquiteto do N3rdistan, o país imaginário de uma nova inspiração.

Mais tarde, profundamente influenciado pelos grandes poetas do mundo árabe e do Médio Oriente, de Mahmoud Darwich a Rumi e aos poetas sufistas de Marrocos, teceu palavras antigas num cântico suave e aéreo — palavras que despertam o espírito e a alma.

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18H
Palácio Cadaval
Música Guinaua
Asmâa Hamzoui & Bnat Timbouktou
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Asmâa
Hamzaoui

Asmâa Hamzaoui, natural de Casablanca, toca o guembri, o instrumento sagrado da música e da cultura guinaua. Começou aos seis anos, ensinada pelo seu pai, o maalem (mestre músico) Rachid Hamzaoui, e é hoje uma das poucas mulheres — se não a única — a tocar este instrumento sagrado em público. Determinada e não rebelde, Asmâa quebrou o tabu em 2017, no Festival Guinaua de Essaouira, com o seu grupo inteiramente feminino Bnat Timbouktou (Filhas de Tombuctu). Todas elas tocam qraqeb — uma espécie de castanholas metálicas, outro pilar da música guinaua — e cantam, empenhadas em feminizar esta forma de arte.

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21H
TEMPLO ROMANO
Música andaluza de Fès
Rays Said Outajajt Ensemble
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Rays Said Outajajt
Ensemble

‘Não esqueçais que a poesia é uma poção mágica; como um sabonete, purifica as tristezas dos nossos corações. Como posso ordenar os meus sonhos? A minha vida parece-me mais intensa do que um romance! As palavras de um poeta são dignas de um filme. Meu Deus! Estou perdido, com a cabeça nas mãos!’ Rays Said Outajajt.

Rays Said Outajajt (Said El Mouibarik), filho de Rays Abdellah Outajajt, destaca-se, tal como o seu pai, na arte do r’bab. Com reputação de ser um poeta de voz quente, ele é um dos sucessores do cântico do Sous. Rays Said Outajajt é um dos jovens compositores e letristas berberes, distinguido pelo seu método clássico e pela sua experiência na busca pela inovação. Além disso, domina instrumentos como: percussão, Lutar e Ribab, tendo participado em de diversos festivais locais, nacionais e internacionais.

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Info

CONTACTOS
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PALÁCIO
CADAVAL
Horário:
Encerrado às segundas
10:00 às 18:00

Rua Augusto Filipe Simões
7000-845 Évora - Portugal

info@palaciocadaval.com
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Bilhetes disponíveis no local.                    
Por Pessoa Criança < 12 Estudantes Mais 65
Exposição 12,5€ Gratuito 10€ 10€
ORGANIZAÇÃO, MARKETING E FUNDRAISING
Alexandra de Cadaval
(Presidente da Comissão Executiva Casa Cadaval - Associação Festival Évora Clássica)
Duquesa Viúva de Cadaval
SAR Princesa Diana d'Orléans, Duquesa de Cadaval
CONCEITO E CO-CRIAÇÃO
Madison Cox
(Presidente da Fundação Pierre Bergé – Yves Saint Laurent)
Alexandra de Cadaval
EQUIPA CURATORIAL
Mouna Mekouar Stephan Janson
Alexandra de Cadaval
CENOGRAFIA
Cyril Martin
ASSISTENTE DE CURADORIA E PRODUÇÃO
Mariana Amado
Ana Braancamp
Ana Coelho
MULTIMÉDIA
Rui Fernandes (Vídeo)
Christophe Ollivier (Iluminação)
Alexandre Mira, Jal Música (Som)
COMUNICAÇÃO E ASSESSORIA DE IMPRENSA
Sutton Communications
O Apartamento
CONCEITO E COORDENAÇÃO EDITORIAL
Joana Areal
Alexandra de Cadaval
APOIO EDITORIAL E REVISÃO
Bardo Creative Ground
EDIÇÃO DE TEXTOS
Chris Mingay
TRADUÇÕES
Nuno Nogueira - Bardo Creative Ground
TEXTOS BIOGRAFIAS
Artistas
Mariana Amado
DESIGN GRÁFICO
Joana Areal
WEBDESIGN
Sara Orsi
AGRADECIMENTOS E APOIO À PRODUÇÃO
Madison Cox
(Presidente da Fundação Pierre Bergé – Yves Saint Laurent)
MUSÉE YVES SAINT LAURENT PARIS
Elsa Janssen
(Diretora do Museu)
Nora Evain-Bentayeb
(Diretora de Exposições e Coleções)
Judith Lamas
(Responsável pelas Coleções Têxteis)
Tiphanie Musset
(Diretora de Exposições e Coleções)
MUSEU YVES SAINT LAURENT MARRAKECH
Alexis Sornin
(Diretor do Museu)
Sahar Lamsyah
(Diretora de Exposições e Coleções)
Hayate Machache
(Responsável pelas Coleções Têxteis)
Laila Ldamr
(Embaixada do Reino de Marrocos em Portugal)
Carlos Pissarra
Paula Paulino
Ricardo Jesus
Custódio Carrageta (Voluntário)
Organização
Apoio principal
Apoio Institucional
Em parceria com
FONDATION JARDIN MAJORELLE
FONDATION PIERRE BERGÉ - YVES SAINT LAURENT